Moeda dos EUA está se digitalizando via stablecoins e se espalhando sem precisar de base militar, embaixadas ou tratados, analisa economista
Os EUA reinventam o dólar no mundo como uma plataforma digital global ao incentivar o uso de stablecoins para comprar títulos do Tesouro, escreveu, em artigo, o economista Fabio Ongaro, vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo (Italcam). “Com os stablecoins, os Estados Unidos criaram uma nova forma de projetar poder financeiro: silenciosa, global, baseada em tecnologia e movida por interesses privados alinhados ao Tesouro”, analisa Ongaro.
Segundo ele, stablecoins já são moeda corrente informal em países do Sul Global, como Nigéria, Argentina, e Líbano, para escapar da inflação e da instabilidade cambial. Além disso, as remessas de trabalhadores migrantes mundo afora são feitas com mais rapidez e menos taxas. “Na prática, o dólar está se digitalizando e se espalhando sem precisar de base militar, embaixadas ou tratados. O poder da moeda americana agora circula por aplicativos e redes blockchain”, explica o economista.
A Europa permanece à margem das stablecoins. “Os bancos centrais europeus ainda não lançaram uma moeda digital forte e os bancos tradicionais barram inovações por medo de perder sua posição dominante.” Não há criptomoeda relevante lastreada em euro.
“A China observa com atenção, mas regula pesadamente seu mercado de criptoativos”, afirma Ongaro, que defende que o Brasil não pode ficar neutro. Nosso País “precisa responder com visão estratégica. Não se trata de hostilidade ao dólar digital, mas de defesa do real, da soberania monetária e da capacidade regulatória nacional. O futuro das moedas já começou, e passa pelo blockchain. Ignorar isso seria um erro histórico. Participar ativamente, com inteligência, regulação e inovação, é o único caminho para não ser apenas espectador de mais uma hegemonia que se impõe, agora, em versão digital”, finaliza o economista.
Matéria publicada pelo veículo Monitor Mercantil.
Dólar se espalha pelo mundo através dos stablecoins | Monitor Mercantil