Jornada de trabalho no setor de eventos: governo precisa ouvir a cadeia produtiva

O Brasil voltou a discutir mudanças na jornada de trabalho no setor de eventos e na escala 6×1. O debate é relevante e tem impacto direto sobre trabalhadores, empresas e a própria dinâmica da economia. Justamente por isso, não pode ser conduzido como se todos os setores operassem da mesma forma. Também não basta alterar a regra no papel e esperar que a realidade se ajuste automaticamente.

No setor de eventos, essa diferença é decisiva. Eventos não acontecem em “horário de escritório”. Eles têm data marcada, janela de montagem, exigências de segurança, restrições de logística urbana e operação integrada entre múltiplos fornecedores.

Quando um congresso começa às 9h, uma equipe já trabalhou de madrugada para que iluminação, som, internet, cenografia, limpeza, credenciamento e segurança estejam prontos. Da mesma forma, quando um show abre os portões, dezenas de serviços precisam estar sincronizados na mesma faixa de tempo.

O evento não espera. O público não espera. O contrato não espera.

Por isso, a ABRAFESTA defende que qualquer proposta envolvendo jornada e escalas parta de um princípio básico de boa governança: diálogo estruturado com representantes setoriais.

Não se trata de “defender empresário”. Trata-se de proteger o emprego formal, garantir previsibilidade e evitar que uma medida bem-intencionada gere efeitos colaterais perversos, especialmente em cadeias intensivas em mão de obra, com operação por turnos, picos de demanda e fins de semana.

A cadeia de eventos é formada majoritariamente por pequenas e médias empresas prestadoras de serviços. Entre elas estão negócios de montagem e desmontagem, locação de equipamentos, audiovisual, cenografia, limpeza, segurança, recepção, credenciamento, alimentação e outras atividades correlatas.

Essas empresas vivem de cronograma, contrato e entrega. Portanto, se o desenho regulatório reduzir a flexibilidade de escala de forma abrupta, sem transição e sem considerar a realidade operacional, o impacto tende a se concentrar justamente onde há menor capacidade de absorção: na ponta da cadeia.

Quando a ponta é pressionada por custos e rigidez, o ajuste costuma ser conhecido. Primeiro, vêm as renegociações e a redução de escopo. Depois, ocorre o encarecimento do serviço. Com isso, surgem eventos menores, menos frequentes ou até cancelados, sobretudo em mercados mais sensíveis a preço.

Em seguida, aparece o risco social real: menos vagas formais, mais rotatividade e maior espaço para a informalidade. Essa conta não fica restrita à empresa. Ela chega ao trabalhador, à renda do mês e à estabilidade de famílias inteiras.

Outro ponto essencial é que o setor de eventos depende fortemente de fins de semana e feriados. Qualquer mudança na jornada de trabalho que não dialogue com esse calendário aumenta a complexidade, o custo e a litigiosidade.

Além disso, a operação nesses períodos exige previsibilidade e segurança jurídica. Em um setor com alto nível de interdependência entre fornecedores, a insegurança de um elo contamina toda a cadeia.

Por essa razão, a posição da ABRAFESTA é clara e responsável: o debate sobre jornada deve avançar, mas precisa considerar recorte setorial, transição gradual, segurança jurídica e valorização da negociação coletiva para atividades que dependem de janelas tempo-críticas e sazonalidade.

Defender essa posição é também defender o trabalhador. Afinal, preservar formalização e previsibilidade significa preservar renda, proteção social e estabilidade.

O governo tem uma oportunidade importante: conduzir um debate moderno, equilibrado e baseado em evidências, ouvindo quem conhece a operação real.

O setor de eventos não pede privilégio. Pede racionalidade. Pede que as decisões considerem as peculiaridades de quem mantém o Brasil em movimento nos bastidores, gerando trabalho, renda e desenvolvimento local em milhares de municípios.

Sem diálogo com os representantes do setor, corre-se o risco de produzir uma regra que parece boa na teoria, mas que, na prática, desorganiza a entrega, aumenta custos, reduz a formalização e penaliza justamente quem deveria ser protegido.

Em qualquer economia, esse é o tipo de erro que custa caro para empresas, trabalhadores e para o país.

Ricardo Dias
Presidente da Associação Brasileira de Eventos

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